quinta-feira, 17 de maio de 2012

A missão é o testemunho do amor misericordioso

O evangelho de Marcos originalmente terminava em Mc 16,8 com o anúncio do anjo às mulheres, dizendo que Jesus ressuscitara e precedia os discípulos na Galileia. Provavelmente no segundo século, a Igreja, já estruturada, julgou inconveniente a falta das narrativas das aparições do Ressuscitado neste evangelho. Foram, então, acrescentadas três narrativas de aparições, que são resumos das narrativas de aparições dos outros evangelhos, particularmente de Lucas e João. 
Nesta elaboração tardia, tipicamente institucional, a fala atribuída a Jesus, após as três aparições, vai no sentido de afirmar o poder excludente da Igreja, na qual a profissão de fé seguida do batismo já estava consagrada como caminho único e absoluto da salvação. Também ficam afirmados poderes excepcionais conferidos ao crente, como sinais da sua fé, o que contraria a realidade da simplicidade da fé a ser vivida no dia a dia pelos comuns dos mortais.
Com uma visão amadurecida, compreende-se que não cabe à missão impor, condenar ou praticar ações espetaculares. A missão é o testemunho do amor misericordioso, a valorização e o cultivo das manifestações de vida encontradas nas diversificadas comunidades, vendo nelas o sinal da presença de Deus entre os povos, sem exclusões. 
Os últimos versículos fazem alusão à ascensão aos céus, conforme narrada por Lucas em seu evangelho e mais desenvolvida nos Atos dos Apóstolos (primeira leitura), com um sumário de missão. A exaltação do Ressuscitado retirado da terra e glorificado no céu (segunda leitura) foi resultado da influência do messianismo escatológico nas mentes dos discípulos de origem no judaísmo.
Esta visão, que relegou a segundo plano a revelação e a comunicação de Deus na vida e no testemunho de amor do Jesus histórico, influenciou durante séculos a teologia, a espiritualidade e a pastoral da Igreja, remetendo a fé em Jesus a uma recompensa na vida gloriosa futura e celestial. Hoje, resgatando-se as memórias de Jesus de Nazaré, na sua humanidade plena, a fé na sua presença, vivo, nas comunidades nos move ao alegre empenho em construir um mundo novo solidário e fraterno, em que todos se unam em torno do projeto da vida plena para todos, sem restrições.

José Raimundo Oliva

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Na casa de Betânia uma discípula fiel - Mesters e Lopes

SITUANDO
Os capítulos 14, 15 e 16 narram a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ao longo destes três capítulos, "crescem a ruptura e a morte e aparece a vitória sobre a morte". A vitória sobre a morte aparece não só no fim, na ressurreição, mas já está presente, desde o começo, na própria maneira de descrever a paixão e a morte de Jesus. Ela transparece, por exemplo, na calma com que Jesus enfrenta a morte e na maneira como ele encara e interpreta os acontecimentos da sua paixão. A vitória vai crescendo, até manifestar-se plenamente na ressurreição. Jesus não é um derrotado. Derrotados, sim, são os que o matam. A vitória da vida transfigura a morte de Jesus.
Sofrimento, paixão e morte eram o pão de cada dia das comunidades cristãs nos anos 70. Na maneira de descrever o sofrimento, a paixão e a morte de Jesus, Marcos as ajuda a experimentar, desde já, no meio do sofrimento, algo da vitória da vida sobre a morte.

COMENTANDO  
Marcos 14,1-2: O pano de fundo - a conspiração contra Jesus
No fim da sua atividade missionária, chegando em Jerusalém, Jesus é aguardado e vigiado pelos que detêm o poder: sacerdotes, anciãos, escribas, fariseus, herodianos, saduceus e romanos. Eles têm o controle da situação. Não vão permitir que Jesus, um carpinteiro agricultor lá do interior da Galiléia, provoque desordem na capital. A morte de Jesus já estava decidida por eles (Mc 11,18; 12,12). Jesus era um homem condenado. Agora vai realizar-se o que ele mesmo tinha anunciado aos discípulos: "O Filho do Homem vai ser entregue e morto" (Mc 8,31; 9,31; 10,33).
Marcos 14,3-5: A unção de Jesus por uma discípula e a críticas dos discípulos
Uma mulher, cujo nome não é mencionado, unge Jesus com um perfume caríssimo. Num gesto de total gratuidade, ela quebra o frasco. Os discípulos criticam o gesto. Acham que é um desperdício. De fato, 300 denários eram o salário mínimo de 300 dias! O salário de quase um ano inteiro foi gasto de uma só vez.
Marcos 14,6: A resposta de Jesus "Uma boa ação para mim!"
Os discípulos olham o gasto e criticam a mulher. Jesus olha o gesto e defende a mulher: Por que vocês aborrecem esta mulher? Ela praticou uma ação boa para comigo. Ela se antecipou a ungir meu corpo para o enterro. Naquele tempo, uma pessoa condenada à morte de cruz não recebia sepultura e não podia ser ungida, pois ficava pendurada na cruz até que os bichos comessem o cadáver, ou recebia sepultura rasa de indigente. Jesus ia ser condenado à morte de Cruz, consequência do seu compromisso com os pobres e da sua fidelidade ao projeto do Pai. Não ia ter enterro. Por isso, depois de morto, não poderia ser ungido. Sabendo isso, a mulher se antecipa e o unge antes de ser crucificado. Com este gesto, ela mostra que aceita Jesus como Messias, mesmo crucificado! Jesus entende o gesto dela a o aprova. Anteriormente, Pedro teve a reação contrária. Para ele, um crucificado não podia ser o Messias. Por isso, tentou dissuadir Jesus, mas recebeu uma resposta duríssima: "Vai embora, Satanás!" (Mc 8,32).
Marcos 14,7: "Pobres sempre tereis!"
Jesus disse: "Vocês vão ter sempre pobres com vocês. E se quiserem podem fazer o bem a eles". Será que Jesus quis dizer que não devemos preocupar-nos com os pobres, visto que sempre vai haver pobre? Será que a pobreza é um destino imposto por Deus? Como entender esta frase? Naquele tempo, as pessoas conheciam o Antigo Testamento de cor e salteado. Bastava Jesus citar o começa de uma frase do AT e o pessoal já sabia o resto. O começo da frase dizia: "Você vão ter sempre pobres com vocês" (Dt 15,11a). O resto da frase que o pessoal já conhecia e que Jesus quis lembrar dizia: "Por isso, eu ordeno: abra a mão em favor do seu irmão, do seu pobre e do seu indigente, na terra onde você estiver!" (Dt 15,11b). Conforme esta lei, a comunidade devia acolher os pobres e partilhar com eles seus próprios bens. Mas os discípulos, em vez de "abrir a mão em favor do pobre e de partilhar com ele seus próprios bens, queriam fazer caridade com o dinheiro da moça. Queriam vender o perfume dela por 300 denários e usar esse dinheiro para ajudar os pobres. Jesus cita a Lei de Deus que ensinava o contrário. Quem faz campanha com dinheiro da venda do supérfluo não incomoda e não será condenado. Mas aquele que, como Jesus, insiste na obrigação de acolher os pobres e de partilhar com eles seus próprios bens, este incomoda e corre o risco de ser condenado.
Marcos 14,8-9: Em memória dela
Esta discípula anônima é modelo para Pedro e para os outros discípulos que não tinham entendido nada. Ela é modelo para todos nós, "em todo o mundo". Mais tarde, graças à intervenção de José de Arimatéia, Jesus teve o seu enterro.
Marcos 14,10-11: Judas decide trair Jesus
Em contraste total com a mulher que ungiu Jesus, Judas, um dos doze, resolve trair Jesus. Conspira com os inimigos, que lhe prometem dinheiro. Ele continua convivendo, mas apenas com o objetivo de encontrar uma oportunidade para executar o seu projeto de morte.
Marcos 14,12-15: Preparação da Ceia Pascal
Jesus sabe que vai ser traído. Mesmo assim, faz questão de confraternizar com os discípulos nesta Última Ceia. Ele deve ter gastado bastante dinheiro para poder alugar "aquela sala ampla, no andar superior, arrumada com almofadas" (Mc 14,15). Por ser noite de Páscoa, a cidade estava superlotada de romeiros. Era difícil encontrar uma sala para se reunir.
A Ceia Pascal era uma celebração familiar, presidida pelo pai, um leigo, e não pelo sacerdote. Por isso, Jesus, um leigo, manda dois discípulos preparar a sala para a Páscoa. Em seguida, ele preside a celebração junto com os discípulos e as discípulas, sua nova "família" (cf. Mc 3,33-35).

ALARGANDO

Em memória dela  
Em Mc 14,3-9 e Mt 26,6-13 encontramos o relato de uma mulher anônima que ungiu Jesus, preparando-o para a sepultura. O mesmo episódio da unção de Jesus com perfume encontra-se também em Jo 12,1-8. No texto de João, a moça do perfume tem nome. Ela é Maria de Betânia, a irmã de Marta e Lázaro, que durante um banquete, com um gesto profético, ungiu Jesus para o sepultamento (Jo 12,1-8). Ela é a discípula que gostava de ficar sentada aos pés de Jesus, escutando sua palavra (Lc 10,39). Discípula amada (Jo 11,5), que consegue encher a casa (comunidade) com o perfume que fica empapado em seus cabelos soltos e em suas mãos (Jo 12,3). Seu gesto amoroso será repetido por Jesus na celebração da Ceia (Jo 13,2-5). Ele expressa um traço importante da identificação dos discípulos e discípulas de Jesus, que é o serviço amoroso.
Estes três textos de Marcos 14,3-9, Mateus 26,6-13 e João 12,1-8 colocam o episódio da unção com perfume no contexto da Páscoa, quando Jesus já estava, por assim dizer, condenado à morte. "Então, a partir desse dia, resolveram matá-lo. Jesus, por isso, não andava mais em público, entre os judeus" (Jo 11,53-54). Procurado pela polícia, Jesus vivia clandestinamente com sues discípulos, na região próxima ao deserto (Jo 11,54). Foi nesta situação de incerteza e tensão que Marta, Maria e Lázaro convidaram Jesus para um banquete em sua casa de Betânia, seis dias antes da Páscoa. Com o banquete, buscam solidarizar-se com Jesus, assumindo com ele as consequências da sua missão.
O evangelho de Lucas 7,36-50 apresenta também uma mulher anônima, identificada como "uma mulher da cidade, uma pescadora" (Lc 7,37). Ela banha os pés de Jesus com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, beija-os e unge com perfume. Este texto não está no contexto da Páscoa, mas se encontra inserido dentro do ministério público de Jesus, quando ainda caminhava com seus discípulos e discípulas pela Galiléia. No centro do episódio narrado por Lucas não está a unção de Jesus para a sepultura, mas o rito de acolhida tão importante para as pessoas que percorriam longas distâncias a pé, pelas estradas poeirentas da Palestina.
No entanto, todos os textos têm algo em comum: a mulher é criticada pelo seu gesto e Jesus a defende diante de todos. No texto que acabamos de citar (Lc 7,36-50), a crítica vem de um fariseu de nome Simão. Seu olhar está acostumado com o julgamento e o controle. Ela nem conseguia fazer o gesto tão comum de acolhida carinhosa que sua cultura pede. Também não era capaz de perceber a Boa Nova de Deus, escondida no gesto da mulher.
Em Lucas 7,36-50, a defesa de Jesus mostra onde e como se manifesta o Dom de Deus. Não são os pecados da mulher que contam. O que vale mesmo é o amor, vivido nos pequenos gestos de gratuidade. "Porque muito amou, tem a minha paz!"
Em Mc 14,3-9; Mt 26,6-13 e Jo 12,1-8, a crítica vem de Judas e dos discípulos, que não aceitam o esbanjamento, o desperdício da moça na sua manifestação de amor a Jesus. Incomodados com o seu gesto, apelam para as necessidades dos pobres. Como vimos, Jesus não retira a importância da partilha com os pobres, mas esclarece que ela entendeu e acolheu a Boa Nova de Deus, expressando isso com o seu gesto. Por isso, "onde quer que venha a ser proclamado o Evangelho, em todo o mundo, se fará também memória dela" (Mc 14,9). 

Extraí do livro Caminhando com Jesus - Círculos Bíblicos de Marcos - II Parte, de Carlos Mesters e Mercedes Lopes.

terça-feira, 27 de março de 2012

Clara de Assis: a coragem de uma mulher apaixonada


Há 800 anos, na noite de 19 de março de 1221, dia seguinte à festa de Domingos de Ramos, Clara de Assis, toda adornada, fugiu de casa para unir-se ao grupo de Francisco de Assis na capelinha da Porciúncula que ainda hoje existe. As clarissas do mundo inteiro e toda a família franciscana celebram esta data que significa a fundação da Ordem de Santa Clara espalhada pelo mundo inteiro.
Clara junto com Francisco - nunca devemos separá-los, pois se haviam prometido, em seu puro amor, que "nunca mais se separariam" segundo a bela legenda época - representa uma das figuras mais luminosas da Cristandade. É bom lembrá-la neste mês de março, dedicado às mulheres. Por causa dela, há milhões de Claras e Maria Claras no mundo inteiro. Ela, de família nobre de Assis, dos Favarone, e ele, filho de um rico e afluente mercador de tecidos, dos Bernardone.
Com 16 anos de idade quis conhecer o então já famoso Francisco com cerca de 30 anos. Bona, sua amiga íntima conta, sob juramento nas atas de canonização, que entre 1210 e 1212 Clara "foi muitas vezes conversar com Francisco, secretamente, para não ser vista pelos parentes e para evitar maledicências". Destes dois anos de encontro nasceu grande fascínio um pelo outro. Como comenta um de seus melhores pesquisadores, o suíço Anton Rotzetter em seu livro Clara de Assis: a primeira mulher franciscana (Vozes 1994): "neles irrompeu o Eros no seu sentido mais próprio e profundo pois sem o Eros nada existe que tenha valor, nem ciência, nem arte, nem religião, Eros que é a fascinação que impele o ser humano para o outro e que o liberta da prisão de si mesmo"(p. 63). Esse Eros fez com que ambos se amassem e se cuidassem mutuamente mas numa transfiguração espiritual que impediu que se fechassem sobre si mesmos. Francisco afetuosamente a chamava de a "minha Plantinha". Três paixões cultivaram juntos ao longo de toda vida: a paixão pelo Jesus pobre, a paixão pelos pobres e a paixão um pelo outro. Mas nesta ordem. Combinaram então a fuga de Clara para unir-se ao seu grupo que queria viver o evangelho puro e simples.
A cena não tem nada a perder em criatividade, ousadia e beleza, das melhores cenas de amor dos grandes romances ou filmes. Como poderia uma jovem rica e bela fugir de casa para se unir a um grupo parecido com aos "hippies" de hoje? Pois assim devemos representar o movimento inicial de Francisco. Era um grupo de jovens ricos, vivendo em festas e serenatas que resolveram fazer uma opção de total despojamento e rigorosa pobreza nos passos de Jesus pobre. Não queriam fazer caridade para pobres, mas viver com eles e como eles. E o fizeram num espírito de grande jovialidade, sem sequer criticar a opulenta Igreja dos Papas.
Na noite do dia de 19 de março, Clara, escondida, fugiu de casa e chegou à Porciúncula. Entre luzes bruxoleantes, Francisco e os companheiros a receberam festivamente. E em sinal de sua incorporação ao grupo, Francisco lhe cortou os belos cabelos louros. Em seguida, Clara foi vestida com as roupas dos pobres, não tingidas, mais um saco que um vestido. Depois da alegria e das muitas orações foi levada para dormir no convento das beneditinas a 4 km de Assis. 16 dias após, sua irmã mais nova, Ines, também fugiu e se uniu à irmã. A família Favarone tentou, até com violência, retirar as filhas. Mas Clara se agarrou às toalhas do altar, mostrou a cabeça raspada e impediu que a levassem. O mesmo destemor mostrou quando o Papa Inocêncio III não quis aprovar o voto de pobreza absoluta. Lutou tanto até que o Papa enfim consentisse. Assim nasceu a Ordem das Clarissas.
Seu corpo intacto depois de 800 anos comprova, uma vez mais, que o amor é mais forte que a morte.

Leonardo Boff

sexta-feira, 16 de março de 2012

Dia Mundial da Água completa 20 anos

O Dia Mundial da Água foi criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) no dia 22 de março de 1992. O dia 22 de março, de cada ano, é destinado a discussão sobre os diversos temas relacionadas a este importante bem natural.
Mas porque a ONU se preocupou com a água se sabemos que dois terços do planeta Terra é formado por este precioso líquido? A razão é que pouca quantidade, cerca de 0,008 %, do total da água do nosso planeta é potável (própria para o consumo). E como sabemos, grande parte das fontes desta água (rios, lagos e represas) esta sendo contaminada, poluída e degradada pela ação predatória do homem. Esta situação é preocupante, pois poderá faltar, num futuro próximo, água para o consumo de grande parte da população mundial. Pensando nisso, foi instituído o Dia Mundial da Água, cujo objetivo principal é criar um momento de reflexão, análise, conscientização e elaboração de medidas práticas para resolver tal problema.

No dia 22 de março de 1992, a ONU também divulgou um importante documento: a "Declaração Universal dos Direitos da Água" (leia abaixo). Este texto apresenta uma série de medidas, sugestões e informações que servem para despertar a consciência ecológica da população e dos governantes para a questão da água.

Mas como devemos comemorar esta importante data? Não só neste dia, mas também nos outros 364 dias do ano, precisamos tomar atitudes em nosso dia-a-dia que colaborem para a preservação e economia deste bem natural. Sugestões não faltam: não jogar lixo nos rios e lagos; economizar água nas atividades cotidianas (banho, escovação de dentes, lavagem de louças etc); reutilizar a água em diversas situações; respeitar as regiões de mananciais e divulgar idéias ecológicas para amigos, parentes e outras pessoas.

Declaração Universal dos Direitos da Água
Art. 1º - A água faz parte do patrimônio do planeta.Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão é plenamente responsável aos olhos de todos.

Art. 2º - A água é a seiva do nosso planeta.Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.

Art. 3º - Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.

Art. 4º - O equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.

Art. 5º - A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como uma obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.

Art. 6º - A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.

Art. 7º - A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.

Art. 8º - A utilização da água implica no respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

Art. 9º - A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

Art. 10º - O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Com Medellín, Deus passou pela América Latina. Com quem passa agora? Jon Sobrino

Reflexão para a Quaresma 2012
Os dez anos de Medellín (1968) a Puebla (1979) foram únicos na época moderna da Igreja Católica na América Latina, Depois, começou um declive ao que Aparecida (2007) quis colocar freio, apesar de que ainda temos muito que fazer.
Ao fazer essa avaliação, não nos fixamos na igreja tal como a analisam os sociólogos, mas nos fixamos na "passagem de Deus". Sem dúvida, é mais difícil calibrar; porém, toca a dimensão mais profunda da Igreja e ao serviço de que ela deve estar. Definitivamente, qual a contribuição que ela dá aos seres humanos e ao mundo como um todo. E, obviamente, temos que perguntar-nos "que Deus" é esse que passa pela história em um momento dado.
Medellín
Foi um salto qualitativo. Os pobres irromperam e, neles, Deus irrompeu. Foi um fato fundante que penetrou na fé de muitos e configurou a Igreja.
Surpreendentemente, para a assembleia de bispos, a prioridade não foi da igreja em si mesma; foi do mundo dos pobres e vítimas; isto é, da criação de Deus. Suas primeiras palavras proclamam a realidade do continente: "uma pobreza massiva produto da injustiça". Os bispos atuaram, antes de tudo, como seres humanos e deixaram falar a realidade que clamava aos céus. São os clamores que Deus escutou no Êxodo; o fizeram sair de si mesmo e, decididamente, entrou na história. Da mesma forma, com Medellín, Deus entrou na história latino-americana.
A partir dessa irrupção dos pobres e de Deus neles, Medellín pensou o que é ser Igreja, qual é sua identidade e missão fundamental e qual deve ser seu modo de estar em um mundo de pobres. A resposta foi "uma igreja dos pobres", semelhante à ilusão que tiveram João XXIII e o cardeal Lercaro. No Concílio, não prosperou; em Medellín, sim. A Igreja sentiu compaixão pelos oprimidos e decidiu trabalhar por sua libertação. Por muitos, com maior ou menor consciência explícita, foi acolhida como bênção. Por outros, foi percebida, com razão, como grave perigo.
Logo o poder reagiu. Em 1968, Nelson Rockfeller escreveu um relatório sobre o que estava acontecendo, e essa Igreja, nova e perigosa, tinha que ser debilitada e freada; o mesmo aconteceu no começo da administração Reagan. Oligarquias com o capital, com exércitos, esquadrões da morte, desencadearam uma perseguição contra a Igreja, desconhecida na história da América Latina. A perseguição reiterada deixou às claras a novidade e o evangélico que estava acontecendo: A Igreja de Medellín estava com o povo pobre e perseguido e teve a sua mesma sorte. Milhares foram assassinados, entre eles meia dezena de bispos, dezenas de sacerdotes, religiosos e religiosas, e uma multidão de leigos, mulheres e homens. Com limitações, erros e pecados, era uma Igreja muito mais casta do que meretriz; muito mais evangélica do que mundana.
No interior da Igreja Católica, Paulo VI propiciou e animou essa nova Igreja; porém, altas personalidades da Cúria Romana e de outras cúrias locais a desqualificaram, trataram mal e injustamente a seus representantes, também a bispos e desenharam uma igreja alternativa, diferente e contrária, mais devocional, intimista, de movimentos, submissos a defensores da hierarquia. E o que teria que ser evitado era que a Igreja voltasse a entrar em conflito com os poderosos. A igreja popular, nascida ao redor de Medellín, crente e lúcida, de comunidades de base, que vivia a pobreza do continente, sofreu a dupla perseguição do mundo opressor e, com alguma frequência, da própria igreja.
Uma Igreja assim foi testemunha e seguidora de Jesus de Nazaré. Encarnada, defensora e companheira dos pobres; carregava a cruz e, com frequência, nela morria. Anunciou a Boa Notícia, como Jesus na Sinagoga de Nazaré. Teve seus "doze apóstolos", os Padres da igreja latino-americana, com Dom Helder Camara, um dos pioneiros; com Enrique Angelelli, Dom Sergio Méndez Arceo, Leonidas Proaño, Dom Romero, pastor e mártir do continente e outros. Chegou a ser ekklesia, na qual mulheres e homens, religiosas e leigos, latino-americanos e estrangeiros chegaram a formar corpo eclesial, uma grnade comunidade de vida e missão. Entre os de casa e os de longe, gerou-se uma solidariedade nunca vista. Cresceu a esperança e o gozo. E do amor dos mártires nasceu uma brisa de ressurreição, alheia a toda alienação, que voltava a remeter à história para nela viver como ressuscitados.
Nessa Igreja, soprava o Espírito, o espírito de Jesus e o espírito dos pobres. Esse espírito inspirava oração, liturgia, música, arte. E também inspirava homilias proféticas, cartas pastorais lúcidas, textos teológicos de casa; não textos simplesmente importados que não haviam passado pelo crisol de Medellín.
No centro de tudo estava o evangelho de Jesus. Lucas 4,16: "Eu vim para anunciar a boa notícia aos pobres, para libertar os cativos". Mateus 25,36-41: "Tive fome e me deram de comer". João 15,13: "Ninguém tem mais amor do que o que dá a vida pelos irmãos". E Jesus de Nazaré, o crucificado ressuscitado, Atos dos Apóstolos, 2,23: "A quem vocês mataram, Deus devolveu à vida".
E agora?
Pesquisas, estudos sociológicos e antropológicos, econômicos e políticos oferecem dados e explicações sobre a Igreja Católica e outras igrejas cristãs. Nos dizem se subimos ou baixamos em número e em fluxo na sociedade. A partir dessa perspectiva, nada tenho que acrescentar. E estritamente falando, tampouco é minha maior preocupação qual será o futuro do que chamamos "Igreja", apesar de que nela tenho vivido e vivo, e me acostumei a pertencer à família.
O que me interessa e alegra é que "Deus passe por esse mundo". E a razão é simples. O mundo está "gravemente enfermo", dizia Ellacuría, "enfermo de morte", diz Jean Ziegler. Isto é, necessita de salvação e cura. Por isso, como crente e como ser humano, desejo que "Deus passe por esse mundo", pois essa passagem sempre traz salvação às pessoas e ao mundo em seu conjunto. Tivemos a sorte de sentir essa passagem de Deus com Medellín, com Dom Romero, com muitas comunidades populares. Com muitas pessoas boas, simples, em sua maioria. Com uma plêiade de mártires. E também, apesar de que isso só se pode sentir "em um difícil ato de fé", como dizia Ellacuría ao explicar a salvação que traz o servo sofredor de Isaías, com o povo crucificado.
Como estamos hoje? Seria cometer um grave erro cair em simplismos sobre coisas tão serias. Seria injusto não ver o bom que, de muitas formas, existe nas igrejas. E seria arrogante não tentar descobri-lo, apesar de que, às vezes, se esconda por trás de uma capa que não remete com clareza a Jesus de Nazaré. De todo modo, a passagem de "Deus" sempre será mistério inescrutável, e somente com o máximo de respeito a todos os seres humanos podemos falar disso. Porém, com todas essas cautelas algo se pode dizer. Mencionaremos as realidades dos fieis e de suas comunidades; porém, temos em mente, sobretudo, às instâncias, altas em hierarquia, historicamente muito responsáveis pelo que acontece, e às que não se pode pedir contas com eficácia. Com simplicidade, dou minha visão pessoal.
De diversas formas, abunda o pentecostalismo, como forma de igreja distante dos problemas reais de vida e morte das maiorias, apesar de que traz ânimo e consolo aos pobres, o que não é desdenhar quando não têm onde apoiar-se para que sua vida tenha sentido - distinta é a situação em classes mais bem de vida. Prolifera um grande número de movimentos, dezenas deles, proliferam os meios de comunicação das igrejas, emissoras de rádio e TV, submissos em excesso a ideais e normas que provêm de cúrias, sem dar sensação de liberdade para que eles mesmos tomem em suas mãos o evangelho que anuncia a boa nova para os pobres, em forma de justiça, e sem suspeitar da necessidade de um estudo, reflexivo, minimamente científico, da Palavra de Deus, e, em geral, da teologia que o Vaticano II e Medellín propiciaram. Proliferam devoções de todo tipo, as de antes e as de agora. Jesus de Nazaré, o que passou fazendo o bem e morreu crucificado, é deixado de lado com facilidade em favor do menino Jesus, seja de Atocha, de Praga, o Deus menino, dito com grande respeito. Com facilidade se dilui o Jesus forte da Galileia, do Jordão; o profeta de denúncias ao redor do templo de Jerusalém em favor de devoções baseadas em aparições, com um transfundo sentimental e melífluo em excesso. Falando com simplicidade, a divina providência pode atrair mais do que o Pai de Jesus, o Filho que é Jesus de Nazaré, e o Espírito Santo, que é Senhor e doador de vida, e Pai dos pobres, como se canta no hino de Pentecostes.
Hoje, em seu conjunto, é difícil encontrar na Igreja a liberdade dos filhos e filhas de Deus, a liberdade ante o poder, que não por ser sagrado deixa de ser poder. Nota-se a excessivo servilismo e submissão a tudo o que seja hierarquia, o que chega a converter-se em medo paralisante. A partir das instâncias de poder eclesial, aponta o triunfalismo e o que chamo a pastoral da apoteose, multitudinária, midiática. Em muitos seminários, o discorrer e pensar são substituídos pelo memorizar. Nas reuniões do clero, pelo que sabemos, as perguntas, a discussão e o debate são substituídos pelo silêncio. As cartas pastorais dos anos 70 e 80 -verdadeiro orgulho das igrejas, que reverdecem de vez em quando, na Guatemala, por exemplo- são substituídas por breves mensagens, cheias de modos e comedidas, com argumentos tomados das últimas encíclicas do papa. O centro institucional não parece estar na América Latina, mas na distante Roma. Tudo isso está dito com respeito.
Como será a passagem de Deus pela América Latina e com quem passará está por ver-se, e, definitivamente, é coisa de Deus. Porém, é coisa nossa desejá-lo, trabalhar por isso e aprender a forma como se deu no passado, em Medellín.
Bom é saber e analisar os vai-e-vem dos fieis e o influxo das Igrejas na sociedade. Pelo que dizem os dados, em ambas as coisas, a Igreja Católica vai a menos. Porém, devemos ter presentes as raízes de cuja seiva tem vivido a passagem de Deus. E regá-la humildemente, com águas vivas.
Ainda estamos por ver o que acontecerá com nossa igreja e com todas as igrejas. Meu desejo é que, aconteça o que acontecer, seja para colocar-se a serviço da passagem de Deus por esse mundo, o Deus de Jesus, compassivo, profeta e crucificado. E o Deus doador de esperança.
Estas são as perguntas que sempre podemos fazer. Porém, quem sabe é bom fazê-las no começo da quaresma. Esse tempo nos exige resistência para caminhar rumo a Jerusalém. E nos oferece esperança de encontrar-nos com Jesus crucificado e ressuscitado.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Oração da Campanha da Fraternidade 2012

Senhor Deus de amor,
Pai de bondade,
Nós vos louvamos e agradecemmos
pelo dom da vida,
pelo amor com que cuidas de toda a criação.
Vosso Filho Jesus Cristo,
em sua misericórdia, assumiu a cruz dos enfermos
e de todos os sofredores,
sobre eles derramou a esperança de vida em plenitude
Enviai-nos, Senhor, o vosso Espírito.
Guiai a vossa Igreja, para que ela, pela conversão
se faça sempre mais solidária às dores e enfermidades do povo,
e que a saúde se difunda sobre a terra
Amém!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Big Brother Brasil pode sair do ar

Versão piorada dos piores programas de TV do chamado primeiro mundo, o Big Brother Brasil pode sair do ar. A queda de audiência, desde a primeira edição do programa é preocupante para a Globo, apesar dos lucros. Em 2005, quando atingiu a melhor média no Ibope, o programa fechou com 47,5 pontos .  Na edição de 2011, a média foi de pouco mais de 27 pontos. O programa já perdeu quase a metade de seus espectadores.

Por que a Globo mantém o Programa no ar, apesar da queda de audiência?
Infelizmente, mesmo com público reduzido, o número de ligações para os ridículos “paredões” ainda rende muito dinheiro. Além disso, ainda há empresas insensíveis e desrespeitosas para com o povo brasileiro, que continuam patrocinando esse tipo de programação.

Como fazer para tirar esse tipo de programa do ar?
Uma medida judicial seria considerada pelas elites como censura. As mesmas elites não acusam de censura o veto das emissoras privadas ao Fórum Social Mundial, por exemplo.
O caminho é a pressão popular:
- Não assista!
- Fale com seus amigos para não assistir!
- Não telefone e convença seus amigos que, num sistema ruim como o do Brasil, ao congestionar uma rede telefônica (muitas ligações ao mesmo tempo), eles podem até impedir que uma pessoa necessitada receba socorro medico.
- Boicote os produtos dos patrocinadores do programa, pelo menos neste período (Guaraná Antártica, OMO, Fiat, Cerveja Devassa, Niely).
- Escreva para empresas as patrocinadoras alertando para o risco de grandes campanhas de boicote (hoje todo mundo teme a internet). A Avon já teve que declarar que não patrocina o Big Brother, mas que apenas veicula propagandas no horário. Hipocrisia! Pressione a Avon também!
- Pressione o Judiciário e o Legislativo. Não se esqueça, televisão é concessão pública, cabe à sociedade exigir programação de qualidade.

Um estupro ou muitos estupros?
Na edição de 2012 teve repercussão o possível caso de estupro, com o aval do apresentador Pedro Bial (diante das cenas, teria inicialmente dito que “o amor é lindo”). A omissão da Rede Globo é anterior ao fato, não só por manter o programa no ar, mas por manter o próprio apresentador, já denunciado por violência doméstica cometida contra sua própria companheira. Espera-se que um dia a televisão brasileira deixe de dar espaço para esse tipo de “profissional”.

Uma mulher vítima de estupro, o incentivo para que outros homens cometam a mesma violência, desrespeito à mulher e à sociedade como um todo. O problema de fundo: melhor do que estimular pessoas disputarem um ou dois milhões de reais, fazendo uso de todas as formas de violência, não seria melhor estimular a solidariedade e a partilha?

O caminho talvez esteja mesmo no boicote a qualquer tipo de programa de baixaria e na valorização da programação das TVs públicas.

Pense nisso. E aja!